sexta-feira, março 21, 2008

"Um milhar de anos de sonhos" - "A Partida de Hanna"

Como já escrevi, ando viciado em Lost Odyssey. Dei-me ao trabalho de traduzir a primeira memória de A Thousand Years of Dreams do jogo (não sei se vou traduzir mais alguma, depende do meu tempo, da minha pachorra e do público). O protagonista é imortal e amnésico e, em certas situações, vêem-lhe à memória, sob a forma de sonhos (escritos no jogo), memórias importantes da sua vida. Acho belíssimas as memórias. Espero que gostem.

A Partida de Hanna

Os membros da família têm lágrimas dos olhos quando dão as boas vindas a Kaim de regresso à estalagem.

“Obrigado por vir.”

Ele compreende a situação imediatamente.

A hora da partida aproxima-se.

Demasiado cedo, demasiado cedo.

No entanto, ele sabe, este dia chegaria, e não num futuro distante.

“Eu posso não voltar a ver-te,” disse-lhe com um sorriso triste quando partiu para a sua jornada, a sua face quase transparente na sua brancura, tão frágil – e portanto uma beleza indescritível – enquanto se deitava na cama.

“Posso ver a Hanna agora?” pergunta.

O dono da estalagem acena levemente com a cabeça e diz, “Eu não creio que ela o vá conhecer.”

Ela não abriu os olhos desde a última noite, avisa Kaim. Pode concluir pelo ligeiro movimento do seu peito que ela está presa por um frágil fio à vida, mas que se pode partir a qualquer momento.

“É uma pena. Eu sei que veio aqui por ela…”

Outra lágrima escorre pela bochecha da mulher.

“Não se preocupe, tudo bem.” diz Kaim.

Ele presenciou inúmeras mortes, e a sua experiencia ensinou-lhe muito.

A morte leva o poder do discurso em primeiro. Segue-se a habilidade de ver.

O que persiste vivo até ao derradeiro final, contudo, é o poder de ouvir. Mesmo depois de a pessoa perder a consciência, não é de todo invulgar para as vozes da família causar sorrisos e lágrimas.

Kaim põe o seu braço em volta do ombro da mulher e diz, “Tenho muitas histórias de viagem para lhe contar. Esperei por este momento durante todo o meu tempo na estrada.”

Em vez de sorrir, a mulher liberta outra larga lágrima e acena a Kaim., “E a Hanna esperou tanto por ouvir as suas histórias.”

Os seus soluços quase que secavam as suas palavras.

O dono da estalagem diz, “Gostaria de poder convence-lo a descansar das suas viagens antes de a ver, mas…”

Kaim interrompe as suas desculpas, “Claro, vou vê-la de seguida.”

Sobra muito pouco tempo.

Hanna, a única filha do dono da estalagem e da sua mulher, provavelmente respirará pela última vez antes do sol se erguer.

Kaim abaixa-se, largando a sua mercadoria e silenciosamente abre a porta do quarto de Hanna.

Hanna era frágil de nascença. Longe de desfrutar da oportunidade de viajar, raramente saiu da cidade ou mesmo da vizinhança em que nasceu e foi criada.

Esta criança provavelmente não viverá até à idade adulta, disse o doutor aos seus pais.

A esta pequena rapariga, com extraordinariamente belas características de boneca, os deuses determinaram um destino demasiado triste.

Que eles tivessem permitido que ela nascesse filha única dos gerentes de uma pequena estalagem junto à estrada foi talvez um pequeno acto de reparo de tal injustiça.

Hanna estava privada de ir a lugar algum, mas os hóspedes que se acomodavam na estalagem dos seus pais contar-lhe-iam histórias de cidades e paisagens e de pessoas que nunca conheceria.

Sempre que novos hóspedes chegavam à estalagem, Hanna perguntar-lhes-ia.

“De onde são/é?” Para onde vão/vai?”

“Pode(m)-me contar uma história?”

Ela sentar-se-ia e ouviria as histórias com olhos radiantes, incitando-os a novos episódios com “E depois? E depois?” Quando eles deixavam a estalagem, ela rogava-lhes “Por favor volte(m), e conte(m)-me muitas e muitas histórias de países longínquos!”

Ela ficaria ali a acenar até a pessoa desaparecer no fundo da estrada, dando um solitário suspiro, e voltando para a cama.

Hanna parece estar a dormir.

Mais ninguém está no quarto, talvez uma indicação que ela há muito passou a fase em que os médicos podiam fazer algo por ela.

Kaim senta-se na cadeira junto cama e diz com um sorriso.

“Olá, Hanna, voltei.”

Ela não responde. O seu pequeno peito, ainda sem o inchaço de uma mulher crescida, sobe e desce quase imperceptivelmente.

“Eu fui muito para além do oceano desta vez.” Ele conta-lhe. “O oceano do lado onde o sol nasce. Apanhei um barco no porto bem bem bem por de trás das montanhas que consegues ver por esta janela, e estive no mar durante o tempo da lua estar perfeitamente redonda até ficar mais pequena e mais pequena e depois maior e maior até estar cheia outra vez. Não havia nada para além do oceano que o olho pudesse ver. Só o mar e o céu. Consegues imaginar, Hanna? Tu nunca viste o oceano, mas tenho a certeza que as pessoas contaram-te sobre ele. É como uma enorme, grande possa sem fim.”

Kaim ri para si mesmo, e parece-lhe que a pálida bochecha branca de Hanna move-se ligeiramente.

Ela pode ouvi-lo. Mesmo que não possa falar ou ver, os seus ouvidos ainda estão vivos.

Acreditando e esperando que seja verdade, Kaim continua com a história das suas viagens.

Ele não fala palavras de despedida.

Como sempre com Hanna, Kaim sorri com uma gentileza especial que nunca mostrou a mais alguém, e continua a contar os seus contos com a sua voz alegre, ás vezes até acompanhando a sua história com gestos exagerados.

Ele conta-lhe sobre o oceano azul.

Ele conta-lhe sobre o céu azul.

Ele não lhe conta sobre a violenta batalha naval que manchou o oceano de vermelho.

Ele nunca lhe conta sobre essas coisas.

Hanna era apenas uma miúda pequena quando Kaim visitou pela primeira vez a estalagem.

Quando ela perguntou-lhe “De onde és?” e “Contas-me algumas histórias?” com a sua pronuncia acriançada e sorriso inocente, Kaim sentiu-se um fraco ardor no peito.

Na altura, regressava de uma batalha.

Mais precisamente, tinha acabado uma batalha e seguia caminho para a próxima.

A sua vida consistia em viajar de uma campo de batalha para o outro, e nada disso mudou até hoje.

Ele tomou a vida de inúmeras tropas inimigas, e testemunhou a morte inúmeros camaradas no campo de batalha. Cada vez mais, a única coisa a separar os inimigos dos camaradas é o mais ligeiro golpe de sorte. Tivessem as engrenagens do destino tornado num caminho ligeiramente diferente, os seus inimigos teriam sido seus camaradas e os seus camaradas inimigos. Este é o fado de um mercenário.

Ele estava espiritualmente em baixo na altura e a sentir-se insuportavelmente solitário.

Como possessor de vida eterna, Kaim não tinha medo da morte, o que era precisamente porque cada face de um soldado é distorcida em medo, e porque cada face de um homem que morreu em agonia ficou queimada permanentemente no seu cérebro. Vulgarmente, passaria noites na estrada bebendo. Imergindo-se num estupor alcoólico – ou fingindo tal. Tentava fazer-se esquecer do inesquecível.

Quando, contudo, ele viu o sorriso da Hanna e rogou-lhe por histórias sobre a sua longa jornada, ele sentiu um conforto muito mais quente e profundo que poderia obter do licor.

Contou-lhe muitas coisas…

Sobre a linda flor que descobriu no campo de batalha.

Sobre a beleza encantadora do nevoeiro que cobria a floresta na noite antes da batalha final.

Sobre o sabor maravilhoso da água nascente numa ravina onde ele e os seus homens fugiram após perderem a batalha.

Sobre um céu azul vasto, sem fim que viu depois da batalha.

Nunca lhe contou nada triste. Calou-se sobre a fealdade e estupidez humanas que testemunhou vezes sem conta no campo de batalha. Escondeu-lhe a sua posição de mercenário, manteve-se em silêncio quanto às razões que o levavam a viajar constantemente, e falou apenas de coisas que eram bonitas e doces e encantadoras. Ele vê agora que contou a Hanna apenas bonitas histórias da estrada não muito por preocupação pela sua pureza, mas pela sua própria sanidade.

Ficando na estalagem, Hanna esperando para o ver tornou-se um dos pequenos prazeres da vida de Kaim. Contando-lhe sobre memórias que trazia das suas jornadas, sentiu um certo grau de salvação, contudo leve. Cinco anos, dez anos, a sua amizade com a rapariga continuou. Pouco a pouco, ela quase adulta, o que significava que, como os médicos previram, cada dia trouxesse-a aquele tanto mais perto da morte.

E agora, Kaim termina a última história de viagem que partilhará com ela.

Ele nunca poderá vê-la outra vez, nunca poderá contar-lhe histórias outra vez.

Antes de amanhecer, quando a escuridão da noite está no seu auge, longas pausas na respiração da Hanna.

O vestígio da linha da sua vida está quase a quebrar-se enquanto Kaim e os seus pais tomam conta dela.

A minúscula luz que se alojou no peito de Kaim será extinta.

As suas solitárias viagens recomeçarão amanhã – as suas longas, longas viagens sem fim.

“Vais partir nas tuas viagens brevemente, Hanna” diz-lhe Kaim gentilmente.

“Vais partir para um mundo que ninguém conhece, um mundo que nunca entrou em nenhuma história que ouvi até agora. Finalmente, vais ser capaz de deixar a tua cama e andar para onde quer que queiras ir. Serás livre.”

Ele quer que ela saiba que a morte não é mágoa mas alegria misturada com lágrimas.

“É a tua vez. Tem certeza e conta a todos sobre as memórias da tua jornada.”

Os pais dela farão a mesma jornada um dia. E um dia Hanna poderá encontrar todos os hóspedes que conheceu na estalagem, muito para além do céu.

Eu contudo, nunca poderei ir lá. Nunca poderei escapar deste mundo. Nunca poderei ver-te outra vez.

“Isto não é adeus. É só o início da tua viagem.”

Diz-lhe as suas últimas palavras.

“Voltar-nos-emos a ver.”

A sua última mentira para com ela.

Hanna faz a sua partida.

A sua face é transfundida com um sorriso tranquilo como se tivesse acabado de dizer,

“Vemo-nos em breve.”

Os seus olhos nunca se abrirão de novo. Uma única lágrima desliza pela sua bochecha.

7 comentários:

Anónimo disse...

é lindo.
cria logo umas quantas perguntas.
LOL
porque é que ela morreu, porque é que ele é imortal blablabla... pareço uma criança na idade dos porquês

Don Martins disse...

LOL
a) porque era frágil, mais não sei
b) ainda não cheguei a essa parte, mas pelo que consegui apurar, foi enfeitiçado com a imortalidade, mas tem uma faca de dois gumes, a morte acompanha-o (vê http://www.youtube.com/watch?v=nmZpAdxdBJI )
c) realmente é uma pita xP

Anónimo disse...

bem, tu não deves ter mais nada fazer, para te andares a dar ao trabalho de traduzir tudo isto.. de qq modo, adorei o final. a parte de "os seus olhos nunca se abrirão de novo".. é tão triste mas ao mesmo tampo tão lindo.. não me ligues q eu sou passada da cabeça sim? XD **

Don Martins disse...

Não és passada da cabeça, concordo contigo, ...mas pensado bem, até és passada da cabeça.. bem vinda ao cube xD

Don Martins disse...

*clube

Anónimo disse...

Epah tns novidades no post do dia 8/4/2008...ta la o teu nome...

Abraço

Anónimo disse...

ePAh tns um desafio no blog